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Vírus da dengue: dúvidas sobre a ameaça

O corpo humano precisa de um complexo esquema de combate e defesa para neutralizar o vírus da dengue assim que este entra no organismo. A situação é semelhante ao que ocorre em qualquer outra infecção, tendo como agravante o fato de este vírus possuir quatro sorotipos diferentes, o que quadruplica o desafio que o corpo precisa vencer para se ver realmente imune contra a ameaça. Da mesma forma que dificulta também as pesquisas para a produção de uma vacina polivalente.

Assim, algumas dúvidas surgem quando falamos sobre dengue:

• Afinal, já que há diferentes tipos do mesmo vírus, quais são as diferenças entre estes sorotipos?

Existem 4 sorotipos de dengue que se diferenciam do ponto de vista antigênico e na estrutura do genoma viral. Cada sorotipo carrega alguma “assinatura” que é própria dele. Com isto um tipo de vírus dengue não imuniza contra outro tipo.

• É verdade que uma epidemia de dengue causada pelo sorotipo 2 é mais grave que uma epidemia causada pelos outros sorotipos?

Do ponto de vista epidemiológico, o sorotipo 2 tem sido associado com epidemias graves. A gravidade pode ser ainda observada em populações onde houve a circulação anterior de outro sorotipo (ex.: Cuba, 1981, RJ 1990 e 2008). Contudo, este conceito não é absoluto e depende da amostra (genótipo). No Peru, por exemplo, uma cepa de vírus sorotipo 2 circulou e não foram observados casos graves.

• Por que ouvimos dizer que a gravidade dos casos de dengue irá depender do sorotipo circulante?

Com base em observações epidemiológicas. Existem amostras de vírus que causaram formas graves da doença nos países onde ocorreram epidemias. Por exemplo, dengue tipo 2 e dengue tipo 3. Entretanto, casos graves de dengue já foram descritos na literatura, causados por todos os quatro tipos.

• É verdade que o sorotipo 4 nunca foi detectado aqui no Brasil até hoje? Será que de fato ele não entrou em nosso país ou nós é que não conseguimos detectá-lo ainda?

O sorotipo 4 foi identificado no Brasil em 1981 em Boa Vista, Roraima, porém não se espalhou no país. Os protocolos utilizados para o diagnóstico laboratorial permitem identificar todos os quatro tipos de vírus e o tipo 4 já teria sido encontrado caso estivesse circulando no país. Sendo um novo sorotipo, provavelmente haveria um agrupamento de casos e isso levaria à identificação do vírus, dentro das áreas onde atuam os Programas de Vigilância Epidemiológica dos estados e dos municípios de maior porte.

• Por que não podemos ter uma epidemia de dengue causada por mais de um sorotipo ao mesmo tempo, como, por exemplo, uma epidemia causada pelos sorotipos 2 e 3?

Em várias oportunidades tem sido isolado mais de um sorotipo durante uma mesma epidemia, entretanto o que observamos é o predomínio de um sorotipo. O nível de imunidade da população e as características das amostras são fatores que “regulam” esta situação.

• Da mesma forma, podemos estar infectado ao mesmo tempo pelos dois sorotipos diferentes?

Sim. Uma pessoa pode se infectar por mais de um vírus ao mesmo tempo. No Brasil inclusive já foram descritas infecções duplas, no MT e CE. Nestes casos, porém, a doença não será necessariamente mais grave.

• Existe previsão de uma vacina para a dengue e por que é tão difícil a produção desta vacina?

A vacina para larga aplicação ainda dependerá de algum tempo. Há vacinas candidatas, em estágios mais avançados. A dificuldade é de se obter uma vacina que imunize ao mesmo tempo e bem para os quatro tipos de vírus. Como não há um modelo animal que reproduza bem a doença humana no caso do dengue, isso constitui uma grande dificuldade.

• A pessoa que já teve dengue há muitos anos tem como saber, através de exames, qual foi o sorotipo envolvido e quais as possibilidades de gravidade se ela se infectar anos depois por um sorotipo diferente?

Algumas vezes sim, se for uma única infecção. Em áreas com a co-circulação de muitos sorotipos, fica muito difícil se afirmar com total segurança quais os sorotipos que infectaram o paciente no passado. As formas graves são multifatoriais: dependem do vírus, do indivíduo e de fatores epidemiológicos.

• O teste de sorologia para dengue consegue detectar a doença até quanto tempo depois dos sintomas?

Isto vai depender do teste utilizado. Há testes que identificam especificamente infecção recente e testes que identificam infecções passadas. Nos testes que identificam infecções recentes, onde se pesquisa um anticorpo da classe IgM, é possível confirmar casos de até 2, 3 meses atrás. Existem outros testes que identificam a infecção após longo período.

• Sabemos que uma vez infectado por um sorotipo específico adquirimos imunidade para este e não para os demais, é isso mesmo?

Sim, só iremos nos infectar novamente se for um novo sorotipo que estiver circulando.

• Muito se tem escutado falar em casos de dengue causados por um mesmo sorotipo, só que com cepas diferentes. O que significa isso? Podemos ser infectados uma segunda vez pelo mesmo sorotipo, mas com cepa diferente?

A imunidade é do sorotipo, não se conhece re-infecção pelo mesmo sorotipo, mesmo que sejam amostras diferentes.

• Por que dizem que uma segunda infecção pela dengue pode causar um quadro clínico mais grave que a primeira?

Esta situação tem sido a mais frequente e tem sustentação epidemiológica. Podem ocorrer formas graves na primeira vez também. Do ponto de vista da patogenia, os anticorpos da primeira infecção, em contato com os vírus da segunda infecção, não impedem que a nova infecção ocorra no individuo. Pelo contrário, poderão facilitar a entrada do vírus nas células do paciente, causando uma resposta mais intensa, liberando substâncias que irão causar uma sintomatologia exacerbada, mais grave.

Como diz o ditado, “prevenção ainda é o melhor remédio”...

Fica claro, a partir de todo esse panorama, que a dengue não pode e nem deve ser tratada como uma doença comum. Se forem levados em consideração os riscos desde a infecção, até os vários tipos de resposta que o organismo pode dar, os vários tipos e subtipos do vírus e terminando na incerteza sobre a criação de uma vacina eficiente contra a dengue nesta década, temos uma parcela da ameaça que a doença representa.

Se toda campanha de prevenção não for suficiente para criar novos hábitos em você, lembre-se de todo o esforço que seu organismo faz para combater o vírus e dos riscos que ele corre ao fazer isso. Previna-se contra a dengue e faça de tudo para que o mosquito não tenha lugar em sua casa. A doença é perigosa e pode matar; no entanto, alguns cuidados, que incluem, principalmente, a eliminação de criadouros do mosquito, podem mantê-lo afastado o suficiente desta doença.






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